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Mundo viverá fenômeno da “desglobalização”

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altO mundo está prestes a viver um processo de “desglobalização” em consequência do fortalecimento do estado-nação e do sentimento de “local conteudismo”, levando os países a ter duas alternativas para manter a competitividade: a adaptação criativa ou a destruição criativa, o que, na prática, será refletido nas políticas e nos investimentos em educação e inovação tecnológica. A análise da situação econômica mundial foi feita pelo economista e sociólogo Marcos Prado Troyjo, durante o debate “Educação profissional no contexto da reestruturação produtiva”, na tarde desta quinta-feira (31). A mediação foi do coordenador de política educacional do Programa de Economia Popular e Solidária, Cláudio Araújo Nascimento.

Para o co-fundador e diretor do Centro de Estudos sobre Brasil, Rússia, Índia e China (BricLab), sediado na Universidade de Columbia, em Nova York (EUA), existe hoje um “novo árduo tempo” com diferentes parâmetros de 20 anos atrás. “É dramático como os parâmetros mudaram. Temos uma séria crítica à economia de mercado dentro do próprio Ocidente e o grande ator dessa economia ocidental de 20 anos atrás vive uma crise hamletiana. Os Estados Unidos não sabem quem são, se devem continuar a esbanjar poder ou não. A sua liderança está em cheque”, afirmou.

A ideia de que a inovação é resultado de um processo arquitetado pelas grandes empresas, representada há duas décadas pela IBM, foi derrubada pela via paralela de criação de tecnologia. “Das 15 maiores empresas do mundo, nove não existiam há 20 anos, como Google e Facebook. A inovação não necessariamente é mais um esforço das grandes empresas”, disse Troyjo, que é professor-convidado do Centro de Estudos sobre Atualidades e o Cotidiano da Universidade Paris-Descartes (Sorbonne), da França.

Já a ascensão da China traiu “os manuais dos futurólogos”, nos quais o Japão figurava como líder da economia asiática. Comparando com o Brasil, Marcos Troyjo destacou que em 1978 o Brasil tinha 100 milhões de habitantes e um PIB de US$ 200 bilhões - três vezes e meia a economia chinesa, então com um bilhão de habitantes e um PIB de US$ 56 bilhões. Em 2011, a população brasileira dobrou e o PIB alcançou US$ 2,5 trilhões, tornando-se a sexta economia mundial. Por sua vez, a China teve crescimento populacional de 25% (1,25 bilhão de habitantes), mas seu PIB agora é o triplo do brasileiro, com US$ 7,6 trilhões.

E, finalmente, o último parâmetro desse “novo árduo tempo” exposto pelo economista brasileiro é o renascimento do estado-nação. “Se há 15 anos parecíamos rumar à integração econômica regional, temos agora o renascimento do estado-nação como um ato muito importante. Vemos o primeiro ministro da Grã-Bretanha falar que está procurando fazer não o melhor para a Europa, mas para a Grã-Bretanha. É o que chamamos ‘local conteudismo’ (priorização do conteúdo local), o que pode levar a grandes deficiências do sistema econômico mundial, onde prevalecerá a tônica individualista.”

Marcos Troyjo considera que o Brasil, embora negativamente ainda invista apenas 1% do PIB em ciência e tecnologia, tem no pré-sal e no agronegócio competências que podem torná-lo um país com excedente dessa adaptação criativa. “E, aliado ao crescimento nos investimentos em C&T, o Brasil poderá não só combater nossas desigualdades sociais como se tornar uma das economias de maior crescimento do mundo”, concluiu.

Competências

Já a socióloga francesa Prisca Kergoat relatou as consequências da crise do emprego a partir da década de 1980 na França, o que levou o sistema escolar a adotar a noção de competência nos cursos. “A flexibilização do trabalho obrigou a fixar novas modalidades de qualificação, antes medida pelo diploma.  A concorrência fez com que esta qualificação passasse a ser medida por características individuais, o saber ser”, afirmou.

Com o que chamou “olhar a partir do trabalhador”, o uruguaio Fernando Rodal, presidente da Confederação de Educadores Americanos, criticou a educação voltada para o emprego e a produção. “Quando nos opúnhamos à questão de competências é porque víamos se desmontando a capacidade de educação integral da escola por uma necessidade do mercado. O trabalhador tem que se preocupar com a qualificação, mas voltada para que e para quem”, questionou.

Membro do setor de educação da União de Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras em Educação da Andaluzia (USTEA), na Espanha José Segovia Aguilar, falou do drama social causado pela grave situação econômica atual da Espanha, onde mais de um milhão de famílias estão sem emprego e vivem de pensões ou seguros. Para ele, a crise é consequência da política econômica do governo entre 1998 e 2008 com forte estímulo no crédito para o setor imobiliário, levando ao endividamento das famílias e das empresas, baixa qualificação profissional e ao abandono escolar, por parte de jovens que encontravam emprego fácil na construção civil.

No que se refere especificamente à educação profissional, Segovia relatou que, nos últimos sete anos, foram realizadas quatro reformas. A mais recente é a implantação do sistema dual, onde os alunos que recebem salário básico usam parte da jornada para qualificação em centros educativos administrados pelas próprias empresas. “O currículo está centrado nas necessidades específicas das empresas e o sistema é segregado, não atende ao conjunto de trabalhadores”, criticou o professor.

O exemplo brasileiro de política de educação profissional contextualizada com a reestruturação produtiva foi apresentado pelo coordenador geral de Planejamento e Gestão da Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica (Setec/MEC), Marcelo Machado Feres.  Ampliar as oportunidades para estudantes, jovens e trabalhadores é o principal objetivo do Programa Nacional de Acesso à Escola Técnica e ao Emprego do Governo Federal, o Pronatec, afirmou Feres, ressaltando que hoje seis milhões de estudantes estão no ensino superior e apenas 1,3 milhão na educação profissional e tecnológica. A meta do Pronatec é beneficiar com qualificação técnica, entre 2011 e 2014, oito milhões de pessoas.

(Suely Leitão)

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